Eu fico vendo as discussões correrem soltas sobre a intervenção política na estátua de Borba Gato. Descobri que precisamos rever o dito popular “de médico e louco, todo mundo tem um pouco”. Somos brazucas. Além de médicos, loucos, técnicos de futebol, fiscais da vida alheia, entendedores de manobras de skate (e de surfe), somos, pasmem, museológos.

Não raro, ouvi expressões: “sou contra”, “vandalismo”, “tem que preservar a História”, “tira e coloca num museu”… E por aí, na ladeira abaixo da existência e do juízo, as abobrinhas descem em carrinho de rolimã, em velocidade superior ao foguete fálico do bilionário.

Vamos organizar o pensamento.

Museu não é gaveta

Em 1972, aconteceu em Santiago, no Chile, um evento muito importante. Foi a Mesa Redonda que procurava discutir, considerando o cenário político da América-latina como pano de fundo, um novo olhar sobre o museu e seu papel social. A conclusão, não inovadora, mas afirmativa de outros pensadores precursores, dava conta de que o museu não é um lugar, mas quaisquer lugares em que se proponha inclusão social, valorização das identidades, importância da autonomia e do protagonismo das falas das populações locais… Traduzindo em miúdos: uma noção integral da vivência entre museus e comunidades. A ideia é que o lugar da memória é todo lugar que se propõe discussão e transformação. Surge, renovado e revigorado, o conceito de ecomuseu.

Neste ponto, a função museológica desloca-se de: coleta, preservação e pesquisa para ampliar a função socioeducativa. O fenômeno é o museu visto como ambiente de estímulo ao pensamento crítico, canal de comunicação entre o homem e sua realidade, seguimento interdisciplinar de diálogo a partir do patrimônio. Sai de cena o museu templo e entra o museu fórum. É também nesse período que Waldisa Russio, grande nome da Museologia brasileira, desenvolveu, o conceito de fato museal ou fato museológico como uma relação profunda entre o homem e o objeto em um enclave. Entende-se por enclave o território onde se opera essa relação, mais propriamente o museu, seja ele territorializado ou não.

Essa relação complexa opera-se em vários níveis (internalização, concentração, alimentação do repertório da memória, comparação do senso crítico etc.). O homem posiciona-se como sujeito diante do patrimônio, compreendendo-o, sistematizando-o, documentando-o, conservando-o, expondo-o, comunicando-o.

Aqui já temos mais luz para jogar sobre a questão. O foco não é o objeto em si, esteja ele dentro ou fora de um museu, mas a relação do homem com aquele objeto que o leva a pensamentos críticos, revisionais, de afeto, de pertencimento etc. Estivesse a estátua dentro do museu, modificaria os efeitos da relação no contexto atual?

Ainda sobre isso, reparando o contexto global, estamos sobre um movimento de reapropriação de acervos e narrativas históricas. O que aconteceu com a estátua de Borba Gato foi um sintoma de algo maior, não apenas um ato isolado.

Mas, afinal, você sabe quem foi Borba Gato? E de que tipo de fonte, você obteve o seu conhecimento? A qual narrativa o culto a esse símbolo favorece?

A importância da documentação

Muitos dirão: “não se pode apagar a História”! De fato, não convém apagar a História, porém, recomendo documentá-la. Não é uma estátua que conta uma história. Ela é um ponto de luz sobre o qual uma narrativa provoca uma recordação ou uma explicação. É um elemento, neste caso material, sobre o qual se sustenta parte de um contexto histórico, social, econômico etc.

Quem atua em museu sabe: nenhum objeto é eterno. Entre os trabalhos dos profissionais de museus (museólogos, restauradores/conservadores, gestores) está a função de conservar os acervos para que tenham a vida prolongada. E, por mais que não se deseje, e a realidade de muitas instituições museais no Brasil é a de baixíssimos recursos (humanos e materiais). Sabemos que os objetos são finitos: por perdas, acidentes, extravios, descaso… Viu as últimas notícias sobre a Cinemateca? Ali, também houve perda irreparável de acervos. E quanto ao Museu Nacional?

Neste ponto, advirto que é crucial estabelecer uma boa documentação do acervo. A documentação traz informações, para além das características físicas e propriedades materiais, a relação da peça com o mundo, com o contexto, com a comunidade. As peças não são eternas, mas as informações sobre elas, com pesquisa aplicada e bem comunicada, podem fazer muito pela preservação da memória como um todo, além do próprio acervo, claro. Trabalhos de universidades, centros de pesquisa, centros comunitários, museus, instituições ligadas ao patrimônio podem ser reveladores sobre o resgate de uma memória mais aprofundada dos bens culturais, inclusive, sendo responsáveis por reposicionar a peça historicamente ou fisicamente.

Volto a perguntar para você refletir: como se elegem objetos como símbolos de memória?

Memória é relação de poder e afirmação de identidade

Não se engane: a memória, os acervos e as instituições relacionadas que conhecemos hoje são frutos de construções de poder, portanto, decisões de um poder constituído.

Os símbolos, na forma de acervos, refletem o modo como a sociedade quer ser lembrada, baseada na construção histórica preservada ao longo do tempo.

Informação e memória são elementos de poder.

Quando digo que determinada pessoa representa um símbolo, digo que os valores que aquela pessoa possui são também meus valores, valores apreciáveis, dignos de reprodução. Acontece que valores são construções culturais e estão presos a contextos e a narrativas impostas. Nunca, absolutamente nunca, contente-se com apenas uma fonte histórica (e como fontes valem livros, coisas e pessoas).

Você se lembra de momentos em que o Brasil construiu uma narrativa romântica nacional? Já ouvir falar em branqueamento da população?

Volto à pergunta do primeiro bloco: a quem interessa preservar determinada memória?

Apagamento da cultura e da identidade de um povo também é uma forma de destruição.

Nossa identidade é o que nos revela e reafirma no mundo, é o que nos agrega, o que nos fortalece coletivamente. Afinal, qual a nossa identidade? Esse tema é uma longa colcha de retalhos e merece aprofundamento.

Você já ouviu falar em Etnocídio?

Meu palpite sobre o ocorrido: museu não é gaveta, não é um lugar para onde você encosta uma verdade inconveniente. Museu é todo e qualquer lugar onde o homem se relacione com a memória e com a sua identidade. Pessoas, ao redor do mundo, estão manifestando a mesma fala questionadora. É preciso ouvi-las.

Qual a melhor solução? A curto prazo, imagino ser ouvir as pessoas, rediscutir determinados dogmas sociais, rever, dialogar… Há locais em que estão mapeando estátuas e esculturas históricas para entenderem melhor o processo.

E no fundo, bem no fundinho, quem está incomodado com a estátua que queimou (e nem se danificou tanto assim) há de pensar: “estão botando fogo em nós”, porque aqui também entra a tal da questão identitária.

Depois de tudo isso, para você, o que é museu?

Para você saber mais

DUARTE CÂNDIDO, Manuelina Maria. A função social dos museus. In: Canindé – Revista do Museu de Arqueologia de Xingó, nº 9. Aracaju: Universidade Federal de Sergipe, junho/2007. p. 169-187.

GUARNIERI, Waldisa Russio Camargo. Museologia e museu (Item 1.4). In: BRUNO, Maria Cristina Oliveira (org). Waldisa Rússio Camargo Guarnieri – textos e contextos de uma trajetória profissional (Vol. 1). São Paulo: Pinacoteca do Estado: Sec Estado da Cultura: Comitê Brasileiro do ICOM, 2010.

IBERMUSEOS.ORG. Declaração Mesa Redonda Santiago do Chile, 1972. Mesa Redonda sobre a importância e o desenvolvimento dos museus no mundo contemporâneo. Brasília: Instituto Brasileiro de Museus IBRAM, Programa Ibermuseus, 2012.

SCHWAB, Klaus. A quarta Revolução Industrial. São Paulo: Edipro, 2016. 160 p. Tradução de: Daniel Moreira Miranda.

Ouça o Podcast Museando.